O contrabando em Moçambique não é apenas um desvio individual de mercadorias — é uma rede que se estende de fronteira a fronteira, envolvendo rotas clandestinas, complicidades e um impacto profundo na economia nacional. Neste artigo investigativo, expomos como funcionam essas rotas, quem lucra com elas e por que o desafio continua tão difícil de erradicar.
Casos recentes e o volume do contrabando interceptado
Em 2025, as autoridades aduaneiras interceptaram uma viatura que transportava mercadorias ilícitas na província de Maputo, suspensa em Moamba — evidência de que as rotas de contrabando continuam ativas, mesmo com fiscalização reforçada.
Em operações distintas, foram apreendidas mais de 2.200 caixas de cigarros contrabandeados na fronteira de Ressano Garcia, num golpe que, segundo estimativas oficiais, teria lesado o Estado em cerca de 14 milhões de meticais.
Também foram confiscadas centenas de caixas de bebidas alcoólicas e outros bens ilegais — demonstrando que o contrabando não está restrito a um único tipo de mercadoria, mas abrange um mercado negro diversificado.
As rotas e os métodos usados
O contrabando aproveita vulnerabilidades logísticas e de fiscalização: mercadorias seguem por fronteiras porosas — especialmente em regiões remotas ou pouco vigiadas — e muitas vezes passam camufladas em veículos autorizados ou carregados com produtos parcialmente legítimos.
Há posse de indícios de conivência em algumas cadeias de abastecimento: denúncias recentes apontam que, em certas ocasiões, mercadorias oficiais têm a saída detida para favorecer a entrada de produtos contrabandeados. Esse tipo de bloqueio às operações legais coloca os legítimos importadores em desvantagem e favorece o mercado irregular.
Fronteiras vulneráveis e evasão fiscal
A proximidade com países vizinhos torna algumas províncias especialmente vulneráveis ao contrabando — um comércio ilegal que evita impostos e direitos aduaneiros, drenando receitas públicas e desequilibrando o mercado. Dados recentes indicam que a evasão causada por contrabando de castanha de caju na zona norte causou perdas estimadas em mais de €1,5 milhões ao Estado na última campanha agrícola.
Quem lucra — e quem perde
O principal grupo beneficiado é o do comércio informal e clandestino — atravessadores, importadores paralelos, revendedores de rua — que lucram com preços mais baixos e menor carga fiscal. Por outro lado, o Estado perde arrecadação de impostos, empresas formais veem sua competitividade ameaçada e consumidores perdem porque a informalidade reduz a qualidade e segurança dos produtos.
Impacto sobre a economia formal e consumidores
Empresas legais denunciam concorrência desleal — como no caso de produtores de bebidas que afirmam que blockeios formalizados por aduanas favorecem o circuito de contrabando.
O que está a ser feito — e onde falham as respostas
As autoridades têm intensificado operações de fiscalização e apreensão: recentemente houve ramp-up de fiscalização nas fronteiras e articulação com parceiros regionais para tentar conter o fluxo de mercadorias ilegais.
Contudo, especialistas e autoridades advertem que o contrabando está entranhado em redes complexas — o combate exige não só vigilância, mas reformas estruturais: melhores controles fronteiriços, rastreio logístico, transparência institucional, e políticas de apoio a comerciantes e produtores locais para reduzir incentivos à economia informal.
Conclusão
As rotas secretas do contrabando em Moçambique representam um desafio persistente — uma combinação de vulnerabilidades geográficas, conivência institucional e incentivos econômicos que alimentam o circuito ilegal. Sem uma abordagem ampla — que envolva fiscalização, transparência, apoio econômico e cooperação regional — o problema tende a se perpetuar, com perdas para o Estado, para empresas e para a população.